A cor emana pequena, humilde, discreta na imensidão acinzentada do cemitério dos horizontes. Resiste. Luta. Não vence o todo, mas entra em acordo com o meio. Conquista seu pequeno espaço. Convive.
Escarnece o solo rochoso, árido, seco. Põe-se sob a plenitude de um ser maior. Incomparavelmente maior de objetivo único e simples: prover constantemente feixes retilíneos invisíveis; inflamáveis na focalização de lentes côncavas.
Desafio impiedoso ao zigoto recém germinado, pelo desejo incontrolável e agonizante de respirar, suportar tal penitência. Viver o inferno todos os dias, curar-se durante a noite para repetir-se na tortura incessante na manhã seguinte.
Fruto do gozo de um ser enlouquecido, por uma vida inteira insistente, sofrida sob aquele mesmo ser luminoso, em seu leito de morte. Queria ele, o zigoto, ser o tal Ser luminoso de serviço fácil e admirado por todos. Pois a sua sobrevivência faz-se dependente não só de seu labor frenético, mas também de uma necessidade constante da apreciação alheia por si.
Egoísta, você diria? Não, apenas humano. Mas não era de uma planta que estávamos falando? É meu caro, mas a vida já não é mais semente.
Hello darkness, my old friend, I've come to talk with you again, Because a vision softly creeping, Left its seeds while I was sleeping, And the vision that was planted in my brain Still remains Within the sound of silence.
In restless dreams I walked alone Narrow streets of cobblestone, 'Neath the halo of a street lamp, I turned my collar to the cold and damp When my eyes were stabbed by the flash of a neon light That split the night And touched the sound of silence.
And in the naked light I saw Ten thousand people, maybe more. People talking without speaking, People hearing without listening, People writing songs that voices never share And no one dared Disturb the sound of silence.
"Fools" said I, "You do not know Silence like a cancer grows. Hear my words that I might teach you, Take my arms that I might reach you." But my words like silent raindrops fell, And echoed In the wells of silence
And the people bowed and prayed To the neon god they made. And the sign flashed out its warning, In the words that it was forming. And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls And tenement halls." And whisper'd in the sounds of silence.
Tadrução:
O Som do Silêncio
Olá escuridão, minha velha amiga Eu vim para conversar contigo novamente Por causa de uma visão que se aproxima suavemente Deixou suas sementes enquanto eu estava dormindo E a visão que foi plantada em meu cérebro Ainda permanece Entre o som do silêncio
Em sonhos agitados eu caminho só Em ruas estreitas de paralelepípedos Sob a auréola de uma lamparina de rua Virei meu colarinho para proteger do frio e umidade Quando meus olhos foram apunhalados pelo lampejo de uma luz de néon Que rachou a noite E tocou o som do silêncio
E na luz nua eu vi Dez mil pessoas talvez mais Pessoas conversando sem falar Pessoas ouvindo sem escutar Pessoas escrevendo canções Que vozes jamais compartilharam Ninguém ousou Perturbar o som do silêncio
"Tolos," digo eu, "vocês não sabem O silêncio como um câncer que cresce Ouçam minhas palavras que eu posso lhes ensinar Tomem meus braços que eu posso lhes estender" Mas minhas palavras Como silenciosas gotas de chuva caíram E ecoaram no poço do silêncio
E as pessoas curvaram-se e rezaram Ao Deus de néon que elas criaram E um sinal faiscou o seu aviso Nas palavras que estavam se formando E o sinal disse "As palavras dos profetas Estão escritas nas paredes do metrô E corredores de habitações E sussurraram no som do silêncio"
A pena já não mais se encontra abandonada, residente, sobre o papiro amarelado; envelhecido. A inspiração voltou e com ela um sonho se fez na noite anterior. E nesta manhã os traços seguem-se na harmonia da voz vigorosa que dita as palavras em tom facundo. Voz de pessoa autoritária, mas calma, de caráter enriquecedor e sábio. A mão já não é mais um membro pertencente ao braço, ela tornou-se extensão dos pensamentos e das palavras reverberadas com insistência pela voz na minha mente enlouquecida de escritor fajuto. Um romance está para nascer e sem um pingo de humildade se tornará o mais lido em todo o mundo; o mais vendido; o mais discutido e mais questionado. Atravessará os anos, talvez centenas de anos, quem sabe até os milênios se a humanidade assim perdurar e perpetuará com ela. Será alento de muitos escritores e de, praticamente, toda a humanidade. Terá os seus opositores, mas isso só engrandecerá ainda mais a minha obra. Não penses que devaneio sobre isso, pelo contrário, se me encontro nesse estado de euforia é porque sabes que tenho certeza daquilo que será.
Um romance que contará com um personagem ao qual se lembraram e o tomaram como fonte de inspiração e, porque não, exemplo. Será nosso semelhante, porém superior; inigualável. Diria quase um Deus. Em que todos se espelharão e tentarão alcançá-lo em plenitude. Será magnífico. Estupendo. O romance contará, também, com um antagonista muito superior a nós, meros mortais, dotado de uma maldade sem medidas cabíveis, aliás, será a pura maldade, a essência do mal. Se tornará símbolo e referência dos atos maléficos; será adjetivo de tal substantivo. Só que não chegará aos pés do protagonista.
Revolucionarei a literatura de nossa época, meu amigo! Guarde essas palavras.
Não posso dar mais detalhes sobre a conjuntura desta obra que está por nascer, pois caso esta carta que lhe escrevo caia em mãos erradas colocará em risco toda a autenticidade desse romance. E me parece que será preciso de mais alguns anos para acabar esse livro e quem sabe de mais alguns autores a enriquecê-la, pois temo entregar as minhas faculdades mentais ao vento e sucumbir à total loucura sem nem ao menos acabar o primeiro capítulo. Que, aliás, já o intitulei de Gênesis... Nada mais sensível ao próprio nascimento desta invenção literária que está por vir. Mas não temas, pois ainda hei visitá-lo e ver a tua semente, agora germinada, em meus braços em tempos próximos. Diga a Maria que o nascimento de Emmanuel iluminou a minha mente, até então, mergulhada nas trevas.
O que não é recíproco é amar, isso sim é o que eu posso considerar uma verdade absoluta. Aí virá você e me dirá que não há verdade absoluta, que a unanimidade é burra e utópica, e nem ao menos notarás a essência de minhas palavras; citarás Kant, Piaget, até Nietzsche. Vá com essa sua pífia filosofia para a puta que te pariu e preste atenção no que eu digo. As palavras são falhas, eu sei, e tendem a inúmeras interpretações, mas o sentimento nelas é verdadeiro, são dotadas de inquietações e visíveis aos olhos de quem lhes cabem. Então o que eu digo é o que eu presencio ou sinto, não há uma lógica a se seguir, muito menos um método ou linha de pensamento. E o que eu vejo é que não há qualquer sentimento mutuo no amor, que morrer de amor por alguém ou nos braços sob a lágrima derramada do ser amado é apenas o final de algum conto trágico, triste, algo shakespeariano. Que manter-se nutrida a esperança de tê-lo como seu é sim um sentimento egoísta, mesquinho, unitário. E o desejo de ter-se dominado por ele também não é diferente; o amor é a semente da desgraça e da loucura.
Aos trapos, jogados nas vielas ou nos botequins, vê-se um contingente cada vez maior de afogados no acalmador da alma enfurecida, ferida. O líquido gelado que desce a garganta rouca do choro lamuriado, contido, aquece o corpo frio e mantém o coração vivo para as lamentações ao barman ou ao colega de caneco ao lado. É o líquido o único que conforta, que aquece, que mantém viva e depressiva uma vida qualquer. Não se devia proibir a venda de bebidas ou criar leis a sua restrição ou outros métodos de coagi-la e limitá-la ao homem. Pois ela não é a grande culpada. Deveria, sim, é proibir o amor ao homem ou a qualidade de amar e de ser amado. Pois é ele o maior assassino dos homens. Não me venha com dados estatísticos de poluição, má distribuição de renda, acidentes de transito, tráfico e consumo de drogas e o caralhaquatro, porque se pensares mais a fundo, com outros olhos e de outra maneira, verás que há o Amor por detrás de todos esses males. Ele é o grande mandante, o que põe a bala no resolver e engatilha para o próprio sujeito atirar em si. O verdadeiro Don Corleone.
Pode parecer sádico, mas essa cena, dos homens deploráveis entulhados em bares e calçadas, me anima; me faz sentir o sangue pulsar nos braços, no pescoço, na nuca. Faz com que o frescor do ar aspirado pela boca inunde meus pulmões e lacrimejem os meus olhos, arrepiando-me todos os pelos do corpo. Faz um leve sorriso brotar na minha face, às vezes não contenho uma leve e sutil sonoridade entre os dentes. Aquelas figuras medíocres de aspecto penoso, olhos inchados e faces barbadas, acolhem qualquer um ao seu meio sem pré-requisitos, sem apresentações, só com o olhar cabes baixo e a anuidade com a cabeça. Não me sinto só entre eles. Sou apenas mais um entre tantos. Sou apenas mais um medíocre bêbado que sofre com a arma apontada para a própria cabeça, com a certeza de que a bala encontrará a parede do outro lado do bar e uma mancha de sangue se fará sobre o balcão depois do último gole.
Mas sempre tem um para pedir uma nova rodada, tem sempre um a pedir conselhos, a puxar conversas. Tem sempre um a adiar o suicídio coletivo; a manter-nos vivos pelo respeito à dor do outro, por nos vermos nos olhos alheios, por nos sentirmos iguais e queridos entre si. Pelo conforto da companhia, eu diria até alguns momentos de alegria. E chegaria até mais longe. Diria que os amo e me sinto amado por eles, mas se eu chegasse a afirmar isso teria que, sem pensar duas vezes, puxar o gatilho.